INOCENTE, SÓ O FOGO

Egos, intenções, suspeitas e revelações escaparam intactos

O incêndio que destruiu os galpões que serviam de depósito para a merenda escolar e almoxarifado da Secretaria Municipal de Educação de Várzea Grande, em que pese o lado trágico pelos prejuízos ao dinheiro público, iluminou faces.

Duas denúncias anunciadas ontem pelo presidente do TCE envolviam livros didáticos.

Uma vereadora de Cáceres denunciou o descarte de livros ainda embalados no aterro sanitário da cidade. A prefeitura se pronunciou, justificando que eram livros usados e ultrapassados, doados para reciclagem.

A outra denúncia era de que livros didáticos estavam sendo incinerados em uma cerâmica, na tentativa de esvaziar uma denúncia de vereadores sobre os volumes de uniformes e livros que estavam armazenados no almoxarifado da Prefeitura de Várzea Grande.

Enquanto os galpões queimavam, pipocavam na internet gravações sobre o fato.

Vereadores de oposição levantavam suspeitas de crime, enquanto a secretária de Educação e a prefeita compareciam ao local abraçadas, emocionadas e sob ameaça de mal-estar.

Bombeiros disseram ter gasto 70 mil litros de água no combate ao incêndio, sem revelar o local de tal torneira, de onde o raro produto na cidade abundou em tamanho volume.

Amanheceu o dia, mas as chamas da desconfiança continuavam altas, mesmo com um funcionário do posto de combustível ao lado do prédio que queimou testemunhando que o incêndio começou em um curto-circuito em aparelhos de ar-condicionado na parte externa do imóvel, fato visualizado por ele.

A Politec, chamada ao local, trabalhou em silêncio.

Sérgio Ricardo, chamado pelo presidente da Câmara para uma avaliação no local, não demorou a chegar e logo estranhou a forma como o incêndio progrediu, afirmando que, em sua impressão técnica, ele não deveria ter se espalhado tanto. Também afirmou ter encontrado um líquido ainda em chamas, que chamou, tecnicamente, de “líquido”, freando palavras que sua prática em avaliação de incêndios lhe sugeria naquele momento.

Andou para lá e para cá e, novamente, exibiu a manjada técnica de apontar o dedo indicador para um lugar qualquer, a fim de melhor posar para as muitas imagens feitas por repórteres, influenciadores e assessores.

Enfim, pelos atos e pelas palavras, fica transparente que a oposição à prefeita, liderada pelo presidente da Câmara, que também ocupa a posição de vice-prefeito na linha sucessória, não lamentou o ocorrido. A preocupação foi levantar a tese de incêndio criminoso para ocultação de “provas”.

Revelada a turma do “quanto pior, melhor” e sem pressa para inocentar alguém, o que queimou mesmo foi a esperança do várzea-grandense, que vê as cinzas de dias melhores longe de se assentarem sobre o fim desse período que não deixará saudades.

Várzea Grande “é fogo”.

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