POR ONOFRE RIBEIRO

O eleitor e o Estado

A eleição do domingo deixa lições. Na minha infância lá em Minas Gerais, os coronéis políticos da época trocavam botinas por voto do pessoal rural. Traziam-nos da roça e os confinavam em um curral onde esperavam a hora de irem às urnas. Iam e voltavam devidamente acompanhados por cabos eleitorais dos coronéis. E os votos conferidos. Lealdade truculenta.

O eleitor moderno não precisa da botina, mas uma parte ainda negocia o seu voto, e outra parte, mais urbana, tem outra perspectiva. Diferente, mas igual. Ninguém foi às urnas neste domingo votar pela cidadania ou por um país melhor. Até porque a maioria quase total dos eleitores não sabe o que é um país melhor. Pensam nos seus interesses pessoais e até onde o Estado pode beneficiá-los.

Passadas algumas décadas desde a minha infância, o eleitor ainda é o mesmo. Não usa mais botina. Usa tênis. Não se vende voto por tênis. Mas se troca por emprego público, por favores, por negócios e uma série de conveniências de cunho pessoal ou negocial. O eleitor de hoje vota pelo corporativismo, pelos negócios, por contratos, por empregos seus ou de familiares ou por aspirações que tem em mente.

Tanto quando antes, o eleitor vota para o Estado provê-lo de algum interesse. Igual ao tempo dos coronéis da velha política brasileira. Era de se esperar que depois da enxurrada de denúncias contra o governo do candidato Lula, houvesse alguma indignação eleitoreira. Não houve. Ao contrário. Era de se esperar uma onda de adesão à candidatura do oponente, Flávio Bolsonaro. Não houve. Tudo vale em favor do beneficiamento individual: bolsa família, empregos públicos, etc.

Antes o eleitor do interior de Minas era ignorante demais para compreender o sentido do voto. Hoje, não. Ele sabe, mas não respeita. O voto não tem consistência da dignidade do Estado. O Estado é só um instrumento de interesses individuais ou de grupos.

Encerro este artigo me perguntando quando a sociedade brasileira vai sair de debaixo das asas do Estado e exigir os interesses coletivos em vez dos interesses individuais,. Somos um país muito atrasado na política. O Estado pode fazer o que quiser e será perdoado, desde que mantenha aquela possibilidade remota de beneficiar os que votam. Não no coletivo e no individual.

Os anos seguintes estão entregues ao acaso de como o Estado quiser se comportar. O Estado, por dentro, é corporativo e cuida de si mesmo em todos os poderes. O cidadão e a cidadania ficam para as casualidades de quando, e se sobrar dinheiro tempo, e der certo.

Saio da eleição temendo muito os próximos quatro anos e depois desses os outros quatro. Não há um país com projeto que se manifeste nas urnas. E tampouco candidatos que digam aos acomodados eleitores o que eles precisam saber. Afinal, ainda vale a velhíssima tese de que “o voto é a festa da democracia!. Democracia para algumas castas empoleiradas nos poderes e o trabalho de sustentar o Estado para quem trabalha e produz!

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

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