Não fossem os celulares, o versículo de João ainda trataria apenas de ignorância espiritual e do pecado, dando a quem o cita a aura de pureza em verdade personificada.
Em Mato Grosso, o celular de um advogado assassinado funciona como “delação póstuma”, afastando juízes, revelando conluios e manipulação da justiça em favorecimento de quem pagou por um “direito” que não lhe era certo.
Negociatas, encontros revelados, juras de companheirismo eterno, tramoias, bandalheira, roubos, traições diversas: tudo guardado “seguramente” em uma caixinha eletrônica.
Hoje, duas revelações disseram bem mais do que foi realmente dito.
Em Brasília, o senador Flávio Bolsonaro, ainda sem se desculpar com o jornalista que ele acusou de militante por perguntar sobre seu segredo com Vorcaro, acompanhado por lideranças do “centrão” e de seu partido, o PL, fez outro pronunciamento sobre a mentira contada anteriormente, quando acusava outros de fazerem o que ele revelou ter feito: ir até a casa de Daniel Vorcaro e encontrá-lo pessoalmente, quando ele já ostentava uma brilhante tornozeleira eletrônica.
Os motivos da visita contêm o mesmo número de inacreditáveis furos revelados quando desmentiu parte da própria mentira, na última sexta-feira.
Se deu bem o governador Otaviano Pivetta, que suportou o olhar penetrante de Abilio Brunini, que havia se apressado em dizer que ninguém sabia sobre Vorcaro antes da sua prisão, e calmamente afirmou, na presença do prefeito, que iria aguardar os próximos acontecimentos para um posicionamento.
Entre os apoiadores ao lado de Flávio Bolsonaro, durante o “agora, eu juro”, um olhar vazio disfarçava o que deveria ser constrangimento no semblante de quem sonha com o governo do Paraná. O ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, parecia relembrar seu embate com o ex-presidente da República nas investigações, justamente de quem ele foi avalizar a nova “toda a verdade, nada mais que a verdade” de hoje.
Ao final da nova explicação, Flávio Bolsonaro se retirou com todos os figurantes, sem responder às perguntas dos jornalistas, e deve continuar assim, na moita, esperando, quem sabe, por novas revelações, vídeos, mensagens, pesquisas ou o rastro do dinheiro, aqui e em terras americanas.
Neste momento, acredita-se que o que era festa na esquerda passa a ser preocupação. Cuidados para não inviabilizar a candidatura de Flávio Bolsonaro devem ser tomados. Não há, no mercado político, candidato com viabilidade eleitoral que tenha teto de vidro do mesmo tamanho — e já trincado.

