Antônio Gomes da Silva, réu confesso pelo assassinato do advogado Roberto Zampieri, afirmou durante depoimento que também mataria desembargadores caso recebesse uma missão para executar magistrados supostamente envolvidos em esquemas de venda de decisões judiciais. A fala foi dita durante o Tribunal do Júri nesta quarta-feira (30).
A declaração foi dada durante o interrogatório relacionado ao homicídio de Zampieri, morto a tiros em Cuiabá, em dezembro de 2023. Antônio afirmou que, se tivesse recebido uma ordem para matar algum desembargador ligado ao suposto esquema, teria cumprido a missão.
“Sem dúvida. Eu tenho que comprovar que ele era corrupto. Fazia um pacote. Não tem vergonha na cara uma desgraça dessa. Tem um salário que dá para viver. Tem que roubar dinheiro da Saúde. (…) Eu estou cumprindo a cadeia porque matei corrupto. Eu mandei para o inferno”, disse.
Apesar da afirmação, Antônio negou que tenha recebido uma ordem para assassinar Roberto Zampieri e também afirmou que não houve mandante para o crime. Segundo sua versão, ele não recebeu pagamento pela execução e teria solicitado apenas recursos para custear a viagem até Cuiabá e a hospedagem.
O pedreiro contou ainda que tomou conhecimento de supostas acusações de corrupção envolvendo Zampieri durante uma conversa em Belo Horizonte (MG). A partir disso, segundo o próprio réu, teria decidido executar o advogado.
Durante o depoimento, Antônio também detalhou como planejou o crime. Ele afirmou que pesquisou a região onde ficava o escritório de Zampieri e chegou a cogitar realizar o ataque dentro do estabelecimento. A ideia teria sido abandonada após perceber que havia uma unidade da Polícia Militar localizada a aproximadamente 300 metros do endereço.
O acusado relatou que buscou um ponto próximo ao escritório onde pudesse observar a movimentação sem ser percebido. Segundo ele, chegou a permanecer em frente a uma clínica vizinha e foi alertado por uma funcionária de que aquela seria uma área perigosa.
Antônio afirmou que, naquele momento, chegou a pensar em desistir da ação devido à presença de José Marcos Marini, amigo de Zampieri, que estava nas proximidades. Conforme seu relato, Marini deixou o local pouco antes da execução, e o pedreiro então decidiu prosseguir.
Após o assassinato, Antônio afirmou ter deixado Cuiabá rapidamente. Ele contou que foi até a rodoviária, comprou uma passagem e embarcou para Belo Horizonte. Durante o trajeto, segundo seu depoimento, o ônibus foi parado em uma blitz da Polícia Rodoviária Federal.
O réu afirmou que os agentes perguntaram sobre o motivo de sua viagem a Mato Grosso e sobre o período em que havia permanecido no estado. Segundo ele, a abordagem provocou apreensão, mas acabou sendo liberado para continuar a viagem.
Antônio também explicou que carregava uma caixa no dia do crime e negou que o objeto tivesse sido utilizado para tentar abafar o barulho dos disparos. Ele afirmou ter experiência com armas e saber que a estratégia não seria eficaz.
Sobre a possível existência de outros envolvidos, o pedreiro negou a participação de um mandante, mas relatou ter recebido um áudio de uma pessoa que, segundo ele, tinha sotaque italiano. Antônio disse não conhecer o remetente e afirmou que a pessoa não teria relação com o assassinato.
Ao final do depoimento, contudo, confirmou que encontrou Hedilerson e seguiu com ele até as proximidades do escritório de Zampieri. Antônio não esclareceu, durante o relato, como conseguiu a arma utilizada na execução.
As declarações feitas pelo réu fazem parte do depoimento prestado no processo e deverão ser confrontadas com as demais provas reunidas na investigação e na ação penal.
O julgamento dos três acusados de participação no homicídio do advogado Roberto Zampieri foi retomado na manhã desta quarta-feira (30), no Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá. Após o encerramento do primeiro dia de instrução, as partes desistiram da oitiva das testemunhas que ainda estavam arroladas para depor, permitindo o avanço da sessão para a fase de interrogatório dos réus.
Durante o primeiro dia de julgamento, realizado na terça-feira (29), foram ouvidas seis testemunhas, entre elas delegados da Polícia Civil e da Polícia Federal que atuaram nas investigações do caso. As oitivas abordaram a dinâmica do crime, o planejamento da ação criminosa e os elementos probatórios reunidos ao longo da apuração conduzida pelas forças de segurança.
Conforme a denúncia oferecida pelo MPMT, Antônio Gomes da Silva é acusado de executar o homicídio. Hedilerson Fialho Martins Barbosa teria participado da execução do plano criminoso, inclusive com o fornecimento da arma utilizada no crime. Já Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas é apontado como integrante da empreitada criminosa.

